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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010 Internet
Fonte : webinsider.uol.com.br

O papel da internet na crise do papel jornal
Declaração de Hamburgo coloca agregadores de conteúdo, como Google News e Yahoo News, na posição de vilões da crise do jornal impresso. Além de errar o alvo, não citam a total falta de estratégia desses jornais em monetizar oportunidades.

A Declaração de Hamburgo é um documento escrito por um grupo de jornais com objetivo declarado de defender os direitos autorais na internet. Se parasse por aí, seria compreensível e sob certos pontos de vista, até louvável.

O problema começa quando o documento ataca algo que denomina genericamente como “agregadores de conteúdo”, em clara referência a serviços como Google News, Yahoo! News e o Mahalo.

O documento busca se legitimar defendendo que os agregadores seriam os responsáveis pela crise no jornalismo impresso em papel jornal, uma suposição no mínimo superficial e ingênua, se é que podemos esperar ingenuidade da classe.

Ao contrário do Brasil, onde os jornais impressos apresentaram aumento de circulação nos últimos anos, apesar de eventualmente alegarem queda nas receitas, a situação no mundo tende a ser o contrário: queda de circulação e de receitas.

Sem tentar estender muito a discussão nesse ponto específico, a queda de circulação pode ser explicada por uma enorme variedade de fatores, entre eles a internet:

    * Com o barateamento das tecnologias de publicação (tanto as digitais quanto as impressas), tornou-se muito mais simples produzir um veículo de mídia (revista, jornal de bairro ou outras publicações impressas) e monetizar o negócio, de forma que o volume aumentou muito dos anos 90 até hoje, mas a qualidade ganhou mais graus de separação entre o péssimo, o razoável e o ótimo;

    * Excesso de informações à disposição de qualquer pessoa, em qualquer classe social, com conseqüências como a “Ansiedade de Informação” e o “Paradoxo da Escolha” – fica difícil selecionar o que ler em meio a tantas opções;

    * Aumento exponencial dos gastos em famílias de classe média, nas quais o orçamento é disponível, mas limitado (vale para o Brasil e para a classe média americana também). Anos atrás, gastos como telefonia celular, TV a cabo e conexão à internet eram inexistentes. O dinheiro que hoje é utilizado nestas contas provavelmente migrou de outros lugares, entre eles a assinatura de jornais e revistas;

    * Enfim, a disponibilidade de acesso a jornais pela internet, o que – em tese – permitiria ler um jornal online. Este ponto é bastante controverso, uma vez que são poucos os jornais que publicam todo o material do impresso na internet e os que o fazem ainda não encontraram uma solução de navegação para uma boa experiência do usuário e permite ler online todo o jornal como se faz no papel. Aqui se abre outro imenso foco de debate:

    *
          o qualidade da leitura na tela x papel
          o praticidade de manuseio do papel x interface
          o agrupamento do conteúdo online x no papel
          o capacidade de atualização do conteúdo ao longo do dia

    * Por fim, a questão do imediatismo. Ninguém compra o jornal do dia seguinte para saber que Michael Jackson morreu. O jornal deve assumir outro papel neste caso, o de agregar informações extras, reflexões e desmembramentos do fato jornalístico. Sobre este aspecto, vale a pena ver a entrevista que Celso Freitas concedeu ao Vitrine da TV Cultura abordando o futuro do jornalismo. Se não fizer isso de forma bem feita, muitos blogs e sites o farão. Caberá ao leitor decidir pagar pelo jornal ou ler a fonte que preferir.

Prolongar as discussões acima não cabem neste texto, mas servem para ilustrar o tamanho do problema que os jornais enfrentam, dizendo respeito muito mais ao modelo de negócio do que ao direito autoral em si.

O próprio conceito da distribuição livre de conteúdo é uma noção própria da internet, que levou ao surgimento de iniciativas como o Creative Commons e de movimentos como o Copyleft. Anos depois, com a explosão dos blogs, vieram as discussões sobre o papel do jornalismo e debates sérios sobre o papel dos blogs e do jornalismo no acesso a informação.

Vários outros modelos surgiram, seja pela imprensa tradicional ou alternativa, mas até hoje nenhum se mostrou viável para resolver o buraco da remuneração de conteúdo criado.

Logo, podemos pensar que o argumento fundamental no qual se baseia a Declaração de Hamburgo é válido e lícito. O direito autoral é uma questão central da sociedade contemporânea e quem produz alguma coisa de valor deve ter o direito de decidir se deseja distribuir a criação livremente ou cobrar por ela, salvo exceções (novamente, exceções cujo debate não cabe aqui).

Quando o autor (ou proprietário do direito autoral, no caso dos jornais) escolhe proteger seu conteúdo e cobrar pelo acesso, esta opção ainda gera muita controvérsia e críticas ao modelo escolhido. As críticas incluem questões ideológicas, mercadológicas e éticas, como no Manifesto Internet, escrito por 15 jornalistas e blogueiros alemães em resposta à Declaração de Hamburgo.

Em 2007, o New York Times abriu o acesso ao seu conteúdo online para não-assinantes, sinalizando que esta tendência seria um caminho sem volta, até que Rupert Murdoch (proprietário da News Corp., controladora do New York Times, do Wall Street Journal, da rede de televisão Fox e do tablóide britânico The Sun) decidiu voltar sua atenção aos agregadores de conteúdo, especialmente o Google, através do Google News.

O problema está no alvo. A Declaração de Hamburgo elege um alvo fácil, um bode expiatório para um problema que ainda não sabe como resolver. Se os agregadores de notícias fossem os grandes responsáveis pela queda de circulação e receitas no negócio dos jornais, imediatamente a má administração, o comodismo, o tradicionalismo editorial e outros problemas estariam resolvidos.

A Associated Press afirmou que moveria uma ação junto com alguns jornais impressos contra sites que usassem seu conteúdo de forma inapropriada. Em resposta, o CEO do Google, Eric Schmidt, escreveu um editorial no Wall Street Journal (jornal de propriedade de Rupert Murdoch) afirmando que tem ciência do problema no negócio dos jornais, mas que o Google não é o responsável pelo problema.

Schmidt comentou dados de um post no blog de Políticas Públicas do Google em resposta à Associated Press afirmando que os sites do Google enviam mais de um bilhão de leitores por mês para sites de jornais e que cabe a eles monetizar este conteúdo.

Agora, o serviço Google News permitirá outra funcionalidade: os editores dos sites poderão escolher quantas páginas gratuitas os leitores poderão acessar por dia. A partir daí, o conteúdo será pago. Desta forma, o Google lava as mãos e tenta se retirar do centro da discussão.

Uma matéria do O Estado de São Paulo destacou uma frase do diretor-executivo da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Ricardo Pedreira: “Em relação ao Google, o jornal que quiser pode pedir que tenha seu conteúdo retirado”.

O fato é que esta possibilidade já existia antes da Declaração de Hamburgo. Todo este cenário que se desenvolveu nos últimos meses mostra que estamos longe de uma compreensão mais aprofundada da Economia da Atenção e só vem provar que os negócios estão sendo afetados pelas mudanças no mundo mais rapidamente do que conseguem reagir a estas mudanças.

Tiago Dória comenta em seu blog: “Mesmo num blog gratuito, o leitor paga de forma não monetária ao ceder tempo e atenção para lê-lo. Coisas até hoje escassas e que estão se tornando quase moedas.”

Este deveria ser o ponto de atenção na Declaração de Hamburgo: o que os noticiários impressos estão fazendo para conquistar o tempo e a atenção de seus leitores?

O dinheiro será consequência.

Proteger os direitos autorais é uma medida que pode ter duas consequências bem distintas: demonstrar que de fato as pessoas valorizam o jornalismo da forma como vem sendo feito nas últimas décadas e se dispõe a pagar por ele; ou acelerar o processo de ruptura com a notícia impressa por uma grande massa de leitores que já vêem adotando novas fontes de informação.

Aderir à Declaração de Hamburgo é só mais uma demonstração de que existe uma miopia no negócio da notícia impressa. Ao mesmo tempo em que tenta evoluir e se adaptar, não vê os novos comportamentos como oportunidades, mas como ameaças.

Foca em prolongar o status quo ao invés de buscar soluções que perpetuem o bom jornalismo.

Mesmo quando há operações online bem estruturadas, como é o caso de alguns portais de jornais brasileiros, ainda faltam estratégias para lidar com o jornalismo na internet de forma a atender os melhores interesses dos leitores sem ferir os interesses comerciais do proprietário do jornal.
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